Em seu livro mais famoso que foi adaptado para as telas do cinema, Jodi Picoult coloca em discussão temas polêmicos que envolvem ética profissional e valores familiares.
Anna foi concebida para ser uma salvação para a irmã Kate, que foi diagnosticada com um tipo grave de leucemia aos dois anos de idade. A vida dessa família gira em torno da doença de Kate, todas as decisões que Sara toma são em benefício de sua filha mais velha. Concebida através de fertilização para ser a doadora perfeita para Kate, Anna passou a vida no hospital doando sangue, tecidos, medula e outras coisas para a irmã mais velha.
Treze anos depois, Kate precisa da doação de um rim, mas Anna cansou de servir de fornecedora de órgãos para a irmã mais velha. Por isso, ela entra com um processo contra os pais pedindo sua emancipação médica e levantando debates que podem abalar ainda mais a estrutura frágil de sua família.
É difícil resenhar livros com assuntos pesados, porque sempre fico pensando se deixei alguma coisa de fora. Então, vamos por partes... Eu gostei e não gostei do livro. Gostei da narrativa de Jodi, mas não gostei em como ela divide. São vários pontos de vista sobre um mesmo assunto, o que é ótimo. Porém, o excesso de narradores atrapalha a leitura até que você se acostume com a troca. Acho que uma narrativa em terceira pessoa seria mais eficaz, até porque não senti extremamente forte os sentimentos dos personagens expressos diretamente no pensamento. Não me entendam mal, existe muito sentimento e força na narrativa, mas na minha opinião não mudaria caso fosse narrado em primeira ou terceira pessoa. Sempre me incomodo com uma quantidade superior a dois narradores...
Eu senti muita raiva durante a leitura do livro, simplesmente porque não consegui entrar na alma de Sara, mãe de Kate e Anna. O tanto de amor que ela tem para dar para a filha mais velha falta para Jesse e Anna. Não é como se ela não amasse os outros filhos, mas ela simplesmente não os enxerga, como se os problemas deles não importassem em comparação ao problema da filha doente. Em uma situação como essa, a família inteira é desgastada, mas é impossível compreender uma mãe que simplesmente acha tudo que diz respeito a vida dos outros filhos desimportante. Sara é egoísta e assustada, uma das personagens mais fracas que já li. Na sua busca constante pelo controle ela se afunda cada vez mais, levando toda família para o limbo.
Tudo girou, pelo menos na minha visão, sobre o relacionamento de pais e filhos e amor desprendido. Uma das cenas que mais me chocaram foi a narrativa do nascimento de Anna. Não consigo imaginar uma mãe que vê uma filha nascer e ao invés de se emocionar ou dizer alguma coisa bonita, a primeira coisa que fala ao olhar para o rosto da filha é "cuidado com o cordão umbilical".
No fim das contas, a protagonista da história foi Sara e sua fraqueza, a dificuldade que ela tinha em enxergar o resto da família por causa da doença de Kate. Ela se tornou uma vítima tão grande da doença da filha que dizimou a família inteira. É difícil imaginar uma situação de otimismo em meio à tristeza, mas o clima pesado e fantasmagórico que Sara coloca nos ombros de sua família também é um responsável por tanto sofrimento familiar. Uma atmosfera de amor, ajuda mútua e diminuir o papel da doença na vida do paciente ajuda no tratamento. Falo isso porque já conheci de forma próxima pacientes com câncer e a reação e ação da família em meio à doença influenciou muito nos resultados. Sara, na tentativa desesperada de fazer o melhor que podia, falhou muitas vezes. Como muitas mães. É por isso que o ódio inicial que senti por ela se transformou em compaixão e no fim se tornou pena ao ver o que ela perdeu.
O livro traz assuntos delicados como eutanásia, fertilização "encomendada" e doação de órgãos, deixando um debate excelente até mesmo para salas de aula. Uma coisa que me incomodou foi que acontecem coisas demais em um espaço curto de dias, me passando a impressão que a história durou mais tempo do que realmente durou no livro.
É um bom livro, mas vá preparado para sentir muitas coisas durante a leitura... Ódio, pena, compaixão, sensibilidade, emoção e pensar no valor que quem você ama tem na sua vida. Essa foi uma resenha relativamente pequena baseada no debate que eu teria para fazer sobre esse livro, mas quando a gente tenta enumerar, acaba esquecendo de muitas coisas. Jodi escreve bem e sabe abordar de maneira delicada e diferente um tema pesado como esse. Fiquei curiosa e pretendo ler outras obras da autora.



















15 opiniões:
Sara mexeu muito com meu lado mãe. Sentimentos controversos demais rsrsrs Eu curti muito a leitura justamente por ser um livro mais real e que de certo modo, faz a gente repensar algumas coisas.
Amei a resenha.
Bjss
Eu já assisti ao filme milhares de vezes, é um dos meus preferidos! A mãe das meninas já me dá um ódio tremendo, imagino quando for ler o livro. Sei do final e sei também que provavelmente não vou gostar tanto quado foi com a versão do filme. Mas quero muito ler!
Boa resenha. Fiquei com vontade de lê-lo, pois o filme é bem bacana. E esse lance de vários narradores em primeira pessoa também me incomoda. Se a ideia é pirar com vários pontos de vista, terceira pessoa é mais indicado, a meu ver.
Nossa esse livro deve ser pesado! rsrsrs
Não li, nem assisti ao filme, mas de tudo o que vc falou, eu acho q eu teria pena da mãe.
Parece um caso que a mãe não está nem um pouco preparada para lidar com tudo isso!
Enfim, parabéns pela resenha, espero poder ler esse livro! rs
Adorei a resenha, Iris! A maneira como você expôs sua opinião a respeito da obra foi bem clara e mostrou os por quês e tudo o mais. Gostei bastante. Como eu já disse, eu já assisti ao filme e estou bem curiosa/com medo de ler o livro, porque já chorei horrores vendo.
Beijos,
Gabi
É muito difícil julgar uma mãe numa situação dessas... Sara foi apenas o que o título diz: a guardiã. Acredito que se Anna estivesse no lugar de Kate, Sara teria se posicionado da mesma forma.
Recentemente vi uma reportagem na televisão de um pai que perdeu tudo: emprego, mulher, amigos.... só para poder cuidar melhor do filho.
Nesse caso, Sara perdeu a própria família.
Eu ainda não li o livro, mas estou pensando em comprar... Jodi é uma escritora bastante lida entre as mulheres aqui na Ingletarra.
Ótima resenha, as vezes não dá para ser breve né? Então, já vi o filme e me emocionei muito com a estória, o final para mim foi completamente inesperado.... entendo sua revolta com a mãe, porque nós aprendemos que mãe ama o filho acima de tudo e o que há no livro e filme é um descaço que contradiz essa ideia... o pior é que sei bem como é essa realidade e os frutos dessa falta de carinho, tenho uma colega que tinha uma irmã doente e a mãe mal ligava para ela, ela sempre teve de fazer tudo sozinha e sofre com isso até hoje....
Eu já assisti o filme, e também achei a mesma coisa sobre Sara, por mais que não seja tão detalhado como no livro. Chorei bastante assistindo e pretendo ler o livro, mesmo que mexa tanto com os sentimentos.
Bjs, @nathaliaduarte
www.mentalmorfose.com
Eu nunca vi o filme e nem li o livro, mas essa resenha me deixou curiosa pela história. Parabéns Iris, esta sempre mandando muito bem!
Maíra
Eu já tinha lido uma resenha deste livro
E fiquei muito interessada em conhecer essa historia a fundo
Pois é um tema muito polemico, usar a outra filha simplesmente como um objeto de cura
Beijos
Tenho a maior vontade de ler esse livro Do filme, eu gostei demais. Mas, não sei porque, tenho a impressão de que o livro não é tão bom. Estou certa?
Enfim. Pretendo ler sim, já está na minha lista! :)
Bjs, Íris. :)
Essa história é extremamente emocionante! Chorei litros assistindo ao filme!
Gostei da resenha e vou adicionar o livro na minha lista *-*
Beijos,
Amanda Melanie
A Dangerous Method
Não vi o filme, mas pretendo ler em breve este livro que parece ter uma história muito linda. Bj, Rose.
Eu amei o filme, mas ainda não tive coragem de ler o livro. Deve ser bem pesado, mesmo.
Beijos
Aqui em Portugal este livro tem o titulo "Para a minha irmã". Adoro esta autora. O filme baseado neste romance é fantástico. Recomendo para quem gostou de ler.
Parabens pelo blogue.
Sou devorador de livro também :)
silenciosquefalam.blogspot.com
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