Essas obras são apenas um reflexo do cenário político opressor que o mundo vivenciou durante aquele período. Autores como George Orwell e Aldous Huxley escreveram obras que, apesar de atemporais, descreviam exatamente o sentimento de medo que dominava muitas pessoas em relação aos rumos que a política mundial poderia tomar e as conseqüências que isso traria para o mundo no futuro. Felizmente, as previsões apocalípticas desses grandes autores não se cumpriram como eles esperaram. Pode-se até imaginar que aquilo está longe de algo que possamos trazer para perto de nós, mas não é bem assim.
Com grandes clássicos no gênero, esse estilo de livros e filmes voltou a ganhar visibilidade – mais recentemente com a explosão da série juvenil Jogos Vorazes, que retrata um futuro pós-apocalíptico onde um governo ditatorial lança jovens em um jogo mortal, como forma de reprimir os impulsos rebeldes de um povo.
“Sob esta máscara, há mais do que carne. Sob esta máscara, há uma ideia, Sr. Creedy. E ideias são à prova de balas”.
– V.
As referências ao nazismo são muito claras durante toda a obra, desde as constantes menções ao “Partido”, os preconceitos dos governantes e até mesmo a cor dominante do partido e o perfil de Sutler, o ditador.
No ano de 2006, os quadrinhos, ilustrados por David Lloyd e publicados pela Vertigo, ganharam sua versão cinematográfica roteirizada pelos irmãos Wachowski, responsáveis pela trilogia Matrix. Alan Moore ficou tão irritado com o resultado do longa metragem que pediu que removessem seu nome dos créditos. A questão é que o filme de V de Vingança é sensacional, com a aprovação ou não do criador do mascarado V e sua história.
Há muito da obra original de Alan Moore ali, mas não é ela. O projeto de Moore é mais ambicioso e grandioso demais para ser adaptado aos cinemas, e qualquer tentativa seria falha. Os irmãos Wachowski até tentaram transportar a densidade da graphic novel para o cinema, mas o roteiro inicial dos anos 90, que foi escrito antes mesmo de Matrix, não vingou. Então eles interpretaram: mudaram o período em que a história se passa, tornaram Evey uma personagem mais forte e mais identificável ao nosso tempo e focaram na relação entre Evey e V, criando o filme que nós conhecemos.
"Testemunhei em primeira mão a força das ideias. Vi gente matar em nome delas e morrer defendendo-as. Mas você não pode beijar uma ideia. Não pode tocá-la ou abraçá-la. Idéias não sangram, idéias não sentem dor. Elas não amam. E não é de uma ideia que eu sinto falta - é de um homem."– Evey
É com essas palavras que o filme de V de Vingança inicia – e a partir daí podemos notar que não é uma mensagem simples que as próximas horas nos reservam.
Natalie Portman estrela como Evey, naquele que é, para mim, seu melhor papel. Esqueça o Oscar que ela ganhou por Cisne Negro (que não acho tão merecido assim, apesar de amar tanto Natalie quanto Cisne Negro), nenhuma das cenas da conturbada Nina se comparam à cena que Natalie Portman raspa o cabelo enquanto é torturada e questionada sobre o destino do mascarado V, interpretado por Hugo Weaving.
“Essa noite, eu juro solenemente que a justiça será rápida, será justa e será impiedosa”.
- Chanceler Adam Sutler
Pintado em tons de preto e vermelho, o filme nos mostra uma Inglaterra do futuro, que foi atingida por guerras e vírus nucleares e encontrou a paz sob o domínio do chanceler Adam Sutler (que na graphic novel se chama Adam James Susan), um governante que domina arbitrariamente o país. Um terrorista se levanta, identificado apenas como V, e age contra o governo, incitando uma rebelião pública com data marcada: 5 de novembro do ano seguinte, exatamente um ano depois de seu primeiro atentado. Escondido por uma máscara, V é movido pela vingança e ataca líderes do governo que possuem algum tipo de ligação com seu passado – e é esse passado e essa identidade que um detetive tenta descobrir.
Evey e V são ligados por um passado que se encontra, por suas histórias trágicas que sempre remontam a mão de ferro do governo inglês.
Para quem conhece o filme de 1984, as referências são clássicas à obra – e propositais. Desde os cartazes espalhados pela cidade que relembram os slogans do Socing até as aparições do chanceler, muito parecidas com as projeções do Grande Irmão em público ou pelas grandes teletelas.
“Ele era você e eu. Ele era todos nós”.
– Evey
V de Vingança fala a favor das diferenças e contra qualquer forma de dominação – especialmente social. Com alguns conceitos extremamente fortes, a mensagem geral é positiva e mostra que o governo precisa temer o povo, não o contrário – aliás, essa é uma das frases de V. Governantes são colocados no poder pelo povo, para agirem em bem do povo, não em benefício próprio. Uma grande mensagem que o filme tem a passar é o poder que a voz e a união do povo tem, poder que é mostrado perfeitamente na cena final, ao som de Tchaikovsky.
“Este país precisa mais do que um prédio. Precisa de esperança”.
– Evey
A intenção do filme não é parecer real, pois há até mesmo algumas cenas de lutas com facas onde a destreza de V. mais se assemelha à Matrix, mas talvez seja retirar reflexões em cima do enredo. Pode ser exagerado e parecer distante de nossa realidade, mas é só nos lembrarmos dos últimos levantes nos Emirados Árabes e em como um povo se uniu e conseguiu fazer valer sua opinião, há pouco tempo, durante os últimos três anos.
Ainda existem governantes como Sutler por aí, com medo do povo e do poder que esse povo tem, mas ainda não descobriu. Enquanto o isso, o povo morre de medo desses governantes, sem saber que é com as máscaras de justiça de um povo que eles encostam a cabeça no travesseiro todas as noites e não conseguem dormir, esperando o momento em que esse povo se levantará contra e seu domínio entrará em crise. Pois se há uma coisa que a História nos conta é que grandes impérios sempre irão ruir.
“A verdade é que me fez entender que eu estava errado. E que a decisão de puxar essa alavanca cabe a você.”
– V.
Eu sei que esse filme é velho, a maioria de vocês já viu e não aborda muito a temática do LF, mas eu o re-assisti essa semana e me senti obrigada a resenhar para vocês e comentar sobre ele.






.jpg)
.jpg)














11 opiniões:
Eu ainda não vi esse filme. Tenho aqui em casa (leia-se no meu HD) e pretendo assisti-lo assim que eu tiver um tempinho.
Vi o trailer e reparei que o John Hurt está no filme, fui pesquisar e descobri que ele interpreta o opressor nesta obra. Irônico, não?
Ótimo post. =)
Eu adoooroo esse filme! E a HQ dei uma folheada mas não cheguei a ler, mas parece ótima também!
Beijos
Melhor filme que já vi. Já assisti mais de 10 vezes.
Parabéns, a resenha ficou sensacional.
Esse é um dos meus filmes favoritos e você o descreveu perfeitamente. Apesar de ser um filme antigo, acho que você vai criar a oportunidade de muitas leitores aqui do blog procurarem mais sobre o filme. Já falei muitas vezes sobre o filme e as pessoas desconheciam.
Eu queria muito conseguir esse HQ, mas a Panini parou de lançar ):
"...E ideias são à prova de balas."
O texto ficou fantástico! Não sei se é o melhor do blog, até porque não li todos eles, mas com certeza está entre os melhores. Não é meu filme favorito, mas um dos melhores que já vi. Ainda mais porque assisti pela primeira vez quando tinha uns 14 anos, foi tudo muito "oh" para mim. E diferente. E mais forte do que eu estava acostumada.
Aquele primeiro quote que você colocou no post é sensacional, por sinal.
Sabia que ia acabar querendo ver o filme de novo. Vou ser obrigada a procurar (porque não posso depender do TNT, não suporto filme dublado haha)
Olha, não sabia que o roteiro de V de Vingança é dos roteiristas de Matrix. Fiquei bem surpresa, na verdade, porque odeio Matrix. A ideia é até bem legal (até você ser obrigado a escrever todo um artigo sobre ela pra uma cadeira da faculdade), mas o filme não deu certo comigo.
Beijo!
Eu ainda não assisti a esse filme, mas vontade é o que não me falta ;D
Nossa, cheguei a ficar arrepiada.
"V de Vingança" é um filme pertubadoramente bom, que traz aquele mesmo sentimento da leitura de 1984. Amo demais.
Dois adendos: 1. Não gosto da Natalie, mas suporto a cara dela nesse filme.
2. AMEI sua resenha, sério. De longe a minha preferida do blog todo! ^^
Bjos :*
Oi Iris :D
Eu também adoro esse filme, sendo um dos meus favoritos, acho muito legal a ideia que ele passa.
Sou louca pra ler a HQ, e depois do seu post deu até vontade de rever o filme ^.^
Bjs! =*
Cara eu ja assisti tanto esse filme que meu DVD esta furando. kkkk
Meu ex-marido é simplesmente apaixonado por V de vingança. E ele via muito mesmo.
Tem falas que eu já sei de cor e salteado.
Adoro a mensagem. Adoro o contexto, o cenário, os personagens, as falas.
Adoro de paixão!
Adorei o texto, V de Vigança é um dos filmes que mais gosto e enquanto li seu texto e os trecho selecionados, ia revendo as cenas na minha mente e lembrando como me senti quando assisti o filme. Realmente recomendo.
Não sabia que o filme tinha ficado tão diferente das HQs originais, entendo que o autor tenha ficado triste por não ser fiel, mas apesar de não ser fiel, o filme é uma obra prima, como você disse acredito que não era possível fazer mantendo a obra original. Fiquei com muita vontade de ler as HQs pra conhecer o que afinal inspirou o filme. Afinal pela qualidade do filme tenho certeza que vou gostar delas também. Pra quem ainda não assitiu realmente recomendo. O filme é muito, muito bom.
Esse é um dos meus filmes favoritos! Sou fã Graphic Novels, que tb é excelente!
Esse é um filme que merece ser sempre revisto, questionado e discutido...
Adorei a resenha!!!
Bjuss
Postar um comentário
Obrigado por comentar! Assim que possível, passarei em seu blog retribuindo.
Comentários ofensivos e anônimos são deletados. Caso você não possua um site e queira comentar, use o campo "Nome/URL" e coloque seu nome no campo correspondente, deixando o campo de URL em branco.
Para parcerias e assuntos que não sejam referentes ao post, entre em contato pelo formulário.